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Home > Links > Células Tronco > Análise crítica da utilização de células-tronco no tratamento da insuficiência cardíaca

Análise crítica da utilização de células-tronco no tratamento da insuficiência cardíaca

Terapia Celular

No processo de reparação tecidual, como o que ocorre após o infarto agudo do miocárdio, diferentes tipos celulares (macrófagos/monócitos, fibroblastos, neutrófilos e células endoteliais) relacionados à cicatrização e à remodelação tecidual são normalmente recrutados para a região afetada por mecanismos específicos envolvendo citocinas, modificações da matriz extracelular e proteínas de adesão.

Evidências recentes demonstram que sob circunstâncias controladas "invitro", diversos tipos celulares (células indiferenciadas de músculo esquelético neonatal ou adultas e células pluripotentes embrionárias ou adultas) são capazes de se diferenciar em cardiomiócitos e células endoteliais. Se esse processo puder ser reproduzido "in vivo" de forma controlada, o transplante celular poderá vir a ser uma opção terapêutica, visando a limitar a perda miocitária pós-isquêmica ou até mesmo restabelecer a função cardíaca em pacientes com insuficiência cardíaca.

Nesse contexto, grande número de estudos utilizando abordagens "invitro" e "in vivo" estão em desenvolvimento para avaliar a capacidade de transdiferenciação de diversos tipos celulares para o desenvolvimento de estratégias de reparação cardíaca estrutural e funcional.

Transplante de mioblastos

Cardiomiócitos adultos mantidos em cultura não se multiplicam, sugerindo que nessas células diferenciadas há uma resistência ao reinício do ciclo celular, o que representa um fator limitante se esse tipo de estratégia for aplicada clinicamente. Diferentemente das células miocárdicas adultas, as células musculares esqueléticas dividem-se e são capazes de se regenerar. O músculo estriado esquelético possui a capacidade de regeneração, pois nele se encontram algumas células satélites (mioblastos) capazes de reiniciar seu próprio ciclo celular diante de um estímulo lesivo e, conseqüentemente, de se dividir, dando origem a outras células musculares, que, por fusão celular, levarão à reparação das miofibrilas lesadas. Alguns autores observaram que mioblastos implantados em miocárdio isquêmico de ratos podem sofrer um processo de diferenciação celular, transformando-se em fibras musculares estriadas.

Experimentalmente, mioblastos foram transplantados em modelo de infarto do miocárdio por crioinjúria em cães. A análise histológica revelou a presença, nos sítios de implante, de tecido muscular semelhante ao cardíaco, incluindo a visualização de discos intercalares.

Em outro modelo de infarto por ligação da artéria coronária em ratos, foi estudado o efeito do transplante de mioblastos esqueléticos. Ainda que no seguimento a função ventricular tenha melhorado, não foram detectadas "gap junctions" nas membranas das células esqueléticas, indicando que não há evidências para o acoplamento eletromecânico entre as células.

Clinicamente, o transplante de mioblastos teve início após o implante bem-sucedido em um paciente de 72 anos portador de insuficiência cardíaca avançada. Previamente ao transplante, a cicatriz miocárdica foi caracterizada como irreversivelmente acinética na ausência de viabilidade. Cerca de cinco meses após o transplante celular, a parede acinética tornou-se contrátil e metabolicamente ativa, resultando no aumento da fração de ejeção do ventrículo esquerdo e na melhora da classe funcional do paciente.

Uma das maiores limitações ao transplante de mioblastos é seu grande potencial arritmogênico. Isso decorre do fato de a aparente inabilidade dessas células de transdiferenciação em cardiomiócitos e de formação de um sincício cardíaco com as células vizinhas nativas criar um substrato para arritmias ventriculares por reentrada. Atualmente, em protocolos clínicos de transplante de mioblastos, exige-se o implante de um desfibrilador cardíaco automático anteriormente ao procedimento de terapia celular.

Essa estratégia pressupõe que a célula esquelética indiferenciada poderia se transdiferenciar quando presente no tecido miocárdico sob a influência do contato físico com os cardiomiócitos e/ou substâncias produzidas localmente no tecido cardíaco.

Alternativamente, levantou-se a hipótese de que os possíveis benefícios poderiam decorrer de fusão celular (ainda que recentemente tenha sido demonstrado que esse processo é raro), do papel mecânico que essas células pudessem exercer para evitar o remodelamento que acompanha a insuficiência cardíaca ou da influência das mesmas contribuindo para a secreção ou para o estímulo à produção de fatores de crescimento. O eventual papel dessas possibilidades, no entanto, aguarda demonstrações mais convincentes.

Mais recentemente, células autólogas vêm sendo exploradas como vetores de agentes terapêuticos, ou seja, células esqueléticas atuando como fonte de fatores de crescimento que poderiam ser implantadas no coração.

Para tanto, as células são retiradas por meio da biópsia do futuro receptor, expandidas "in vitro" e modificadas geneticamente para expressar o gene de interesse antes de serem reimplantadas.

Em nosso laboratório, Becker e colaboradores(1) modificaram geneticamente mioblastos esqueléticos de rato para expressar o fator angiogênico VEGF utilizando um vetor adenoviral (Fig. 1).

O potencial dessas células modificadas em reduzir a cicatriz decorrente de uma lesão de isquemia/reperfusão foi comparado ao transplante de células não-modificadas e à injeção de veículo sozinho. Os resultados obtidos demonstraram que, nas condições experimentais descritas, a terapia celular associada à expressão de fator de crescimento (VEGF) contribuiu de maneira significativa para diminuir o impacto da lesão provocada pela isquemia cardíaca seguida de reperfusão, associada ao aumento de densidade capilar na região periinfarto.

Células-Tronco e progenitoras hematopoiéticas

Há pelo menos 50 anos, as células-tronco hematopoiéticas são as que estão mais bem caracterizadas entre as células-tronco estudadas (do adulto, fetal e embrionária), o que levou sua utilização terapêutica, associada às células progenitoras, no transplante de medula óssea.

A plasticidade dessas células em adquirir características de outras linhagens celulares diferentes das células hematopoiéticas foi descrita recentemente e sua potencial utilização terapêutica para a reconstrução tecidual está sendo amplamente investigada. As principais características que distinguem essas células de outros tipos celulares são a capacidade de auto-regeneração e a diferenciação em várias células especializadas, a possibilidade de mobilização a partir da medula óssea para a circulação e a capacidade de evoluir para a morte celular programada em circunstâncias específicas.

Inicialmente, a possibilidade de implantação de células-tronco e células progenitoras hematopoiéticas em tecido miocárdico lesado e sua posterior diferenciação em cardiomiócitos e células endoteliais vasculares foi demonstrada em diferentes tipos de experimentos. Ainda que o papel dessas células na remodelação tecidual não tenha sido completamente elucidado, admite-se que a manipulação e a plasticidade potencial inerente a esses tipos celulares permitem sua utilização terapêutica em diferentes situações, no intuito de se obter melhora funcional e aumento de vascularização, como, por exemplo, do coração na cardiopatia isquêmica.

É importante salientar que a reparação pós-injúria do tecido cardíaco e vascular é um processo natural e pode ser facilmente demonstrado pelo aumento de número de células mononucleares CD34+ circulantes na fase aguda em pacientes com infarto do miocárdio. Esse processo envolve três fases: mobilização de células progenitoras da medula óssea, "homing" das células para o local a ser reparado e diferenciação da célula progenitora no tecido a ser reparado. Estudos recentes procuraram conhecer em detalhe cada passo desse processo com vistas a explorá-los para o desenvolvimento de estratégias reparativas.

Kehat e colaboradores(2), utilizando células-tronco embrionárias, foram capazes de identificar, separar e caracterizar células com propriedades funcionais e estruturais de cardiomiócitos nos primeiros estágios do desenvolvimento, abrindo novas possibilidades de uso terapêutico nas áreas de diferenciação cardíaca e terapia celular. A plasticidade de algumas linhagens celulares (células embrionárias, células-tronco e células progenitoras hematopoiéticas), que se diferenciam "in vitro" em cardiomiócitos, células endoteliais e células musculares lisas, possibilitou seu emprego em modelos animais de infarto agudo do miocárdio, com evidente melhora funcional subseqüente a seu uso.

Nas últimas décadas, as células-tronco embrionárias foram caracterizadas pela sua capacidade de plasticidade, pelo potencial de multiplicação por divisão assimétrica (mantendo sua auto-renovação) e pelo armazenamento, que as tornariam aptas para o emprego imediato em terapia celular para remodelação tecidual. Questões éticas (por serem essas células obtidas da porção interna do blastocisto, um embrião com poucas horas de desenvolvimento) e imunológicas (contornável pela transferência nuclear, conhecida como clonagem terapêutica), contudo, restringem seu uso.

Na busca de uma alternativa às células-tronco embrionárias, identificou-se como opção o emprego de células-tronco com capacidade de plasticidade obtidas de tecidos adultos. Dessa maneira, Orlic e colaboradores(3), em modelo de infarto agudo do miocárdio experimental, injetaram, na área perilesional, 2x105 células-tronco hematopoiéticas. A análise imuno-histoquímica da região infartada identificou 53% de cardiomiócitos, 44% de células endoteliais e 49% de células musculares lisas como provenientes das células-tronco injetadas. A avaliação da função ventricular revelou ganho médio de 30% em relação aos animais controle.

Autores como Asahara e colaboradores(4) e Kocher e colaboradores(5), igualmente, demonstraram que células endoteliais progenitoras (CEP) humanas mobilizadas com GSCF ("granulocyte stimulating colony factor") ou cultivadas, quando injetadas na veia caudal de ratos atímicos (1x106 a 2x106 células) após a ligadura da artéria coronária esquerda, acarretavam diminuição da área de necrose em cerca de 30%, além de aumento da vascularização e conseqüente preservação da função ventricular.

Estudos experimentais de terapia celular na doença
Isquêmica do coração e na insuficiência arterial periférica


Modelos animais de isquemia miocárdica já demonstraram que células de origem medular têm a capacidade de implantação local na área lesada e se diferenciam em células musculares cardíacas e em células endoteliais formando novos vasos sanguíneos (neoangiogênese).

Jackson e colaboradores(6) isolaram uma população de células medulares CD34-, Hoechst dye + (marcador específico para célula-tronco hematopoiética), realizaram um transplante de medula óssea mieloablativo e implantaram as células de interesse. Essas células foram marcadas com ß-galactosidase fluorescente. A implantação dessas células em corações de ratos no pós-infarto foi demonstrada histologicamente pela dupla expressão desse marcador fluorescente e de marcadores específicos de cardiomiócitos e células endoteliais.

Evidência adicional da potencial aplicabilidade da terapia celular em doenças do coração vem da observação po Kocher e colaboradores(5) de que, em modelo experimental de infarto por ligadura da artéria coronária, células-tronco hematopoiéticas de adulto (humanas) retiradas da medula óssea são capazes de dar origem a células endoteliais vasculares quando transplantadas em ratos. A angiogênese resultante do transplante celular levou à prevenção da apoptose de cardiomiócitos, à redução de remodelamento ventricular e à melhoria da função cardíaca.

Kalka e colaboradores(7) isolaram células endoteliais progenitoras do sangue periférico de voluntários humanos, cultivaram-nas e fizeram marcação fluorescente dessas células. Em seguida, 5x105 dessas células foram injetadas em camundongos atímicos com isquemia periférica induzida cirurgicamente. A avaliação da implantação das células e a extensão da neovascularização foram analisadas histologicamente até quatro semanas após a infusão. Os animais que receberam os angioblastos apresentaram melhora significativa da perfusão tecidual avaliada em comparação ao grupo controle, demonstrando o potencial angiogênico dessas células em condições de isquemia periférica.

Estudos clínicos de terapia celular na doença isquêmica do coração

Em relação ao estudo de implantação e diferenciação dessas células para aplicação clínica, a análise histológica para confirmação da diferenciação dessas células e de sua implantação em tecidos tratados fica prejudicada pela impossibilidade de marcação celular antecipada.

Infelizmente, até o momento não possuímos marcadores celulares seguros que possam ser aplicados para essa análise. A avaliação da terapia celular visando à recuperação de áreas isquêmicas no miocárdio humano, por exemplo, deve ser feita baseada em parâmetros clínicos e funcionais, com destaque para os métodos diagnósticos de imagem não-invasivos.

A melhor compreensão da importância fisiológica das células-tronco do adulto nos processos de reparação tecidual permitiu que se estudassem eventuais relações entre fatores de risco cardiovascular e/ou terapias medicamentosas e células-tronco. Nesse sentido, Vasa e colaboradores(8) demonstraram que, em 15 pacientes com doença arterial coronariana documentada, o tratamento com 40 mg/dia de atorvastatina por quatro semanas levou ao aumento de cerca de três vezes no número de células progenitoras endoteliais ao final do período de observação. A importância clínica desse achado ainda está para ser determinada. A relevância das células progenitoras endoteliais para o aparecimento de doença cardiovascular começou a ser questionada recentemente, quando Hill e colaboradores(9), estudando 45 homens sem história de doença cardiovascular mas com diferentes fatores de risco, demonstraram forte correlação negativa entre o número de células progenitoras endoteliais circulantes e o escore de risco combinado de Framingham.

Especulam os autores que a lesão endotelial (secundária à presença dos fatores de risco) na ausência de número suficiente e adequado de células progenitoras endoteliais circulantes possa favorecer a progressão da doença cardiovascular.

Apenas muito recentemente, os primeiros relatos de terapia celular em pacientes portadores de doença arterial coronariana começaram a ser publicados. Assmus e colaboradores(10) transplantaram, por infusão intracoronária, células progenitoras derivadas de medula óssea (n = 9) ou de sangue periférico (n = 11) a pacientes vítimas de infarto agudo pós-reperfusão, dentro de 4,3 + 1,5 dias após o infarto agudo do miocárdio. Durante o seguimento de quatro meses, os pacientes tratados apresentaram aumento da fração de ejeção de ventrículo esquerdo, melhor motilidade regional na zona do infarto, diminuição do volume sistólico final e aumento da reserva de fluxo coronário na artéria relacionada ao infarto agudo do miocárdio. Não foram observados eventos adversos.

O uso de células derivadas da medula óssea do adulto para o tratamento de doença isquêmica grave do coração associada à insuficiência cardíaca foi proposto por Perin e colaboradores(11) em trabalho conduzido em 14 pacientes. Os pacientes foram submetidos a injeção transendocárdica guiada por mapeamento eletromecânico em áreas viáveis porém isquêmicas (miocárdio hibernante). Os autores demonstraram que, em seguimento de quatro meses, houve melhora da classe funcional, redução significativa dos defeitos perfusionais avaliados por SPECT e aumento da fração de ejeção de 20% para 29%.

Stamm e colaboradores(12) propuseram a utilização combinada de injeções intramiocárdicas de células-tronco derivadas da medula óssea com potencial de indução de angiogênese à cirurgia de revascularização miocárdica em 6 pacientes pós-infarto agudo do miocárdio. Cerca de 1,5x106 células foram injetadas em cada paciente na borda da zona de infarto durante a cirurgia de revascularização miocárdica. Após três a nove meses de seguimento, todos os pacientes encontravam-se vivos, e pôde ser documentado aumento tanto da motilidade global (em 4 dos 6 pacientes) como da perfusão da área de infarto (em 5 dos 6 pacientes).

Gowdak e colaboradores(13) adotaram estratégia semelhante para o tratamento de pacientes com doença arterial coronariana grave e difusa, refratários ao tratamento clínico e não passíveis de revascularização cirúrgica completa pela extensão da doença. Em 10 pacientes, células-tronco e progenitoras hematopoiéticas autólogas foram injetadas, durante a cirurgia de revascularização, naquelas áreas de miocárdio previamente identificadas como viáveis e isquêmicas. Não houve eventos adversos relacionados ao procedimento. A análise da perfusão miocárdica nos segmentos injetados e não-revascularizados apontou para a reversão da isquemia nesses segmentos e melhora contrátil. Ainda que não se possa excluir a contribuição dos enxertos realizados à distância para a melhora observada nos segmentos injetados, pode-se especular que o implante de células tenha contribuído via indução de angiogênese para a melhora perfusional e contrátil nos segmentos tratados.

Considerações sobre o uso de células-tronco do adulto

A aplicação do uso de células-tronco do adulto suscita diversas questões ainda em investigação. A seguir, listamos algumas considerações que acreditamos deverão ser respondidas com o avanço das pesquisas de remodelação e regeneração tecidual:

— Os mecanismos intrínseco, molecular e tecidual de manutenção do estado de quiescência e pluripotência das células-tronco do adulto não são conhecidos. Por meio de experimentos de análise de múltiplos genes e da otimização de co-culturas, alguns genes como Nanog e Stat começam a ser identificados como relevantes; diferentes mecanismos de reativação gênica ou de desrepressão de áreas cromossômicas ativando genes embrionários também estão sendo propostos.

— Uma vez obtidas as células-tronco do adulto, como manter uma célula-tronco em seu estado quiescente e proliferativo por um período prolongado de tempo sem a influência de citocinas que transformem essas células?

— As células-tronco obtidas do ambiente medular são diferentes das células tronco CD34+ obtidas no sangue periférico após estimulação com citocinas e apresentam vantagens sobre essas células circulantes em sua capacidade de plasticidade. Após lesões agudas, como, por exemplo, infartos ou queimaduras, um número crescente de células progenitoras aparece na circulação. Como conciliar esses conhecimentos e otimizar a remodelação tecidual em diferentes circunstâncias patológicas tem merecido interesse.

— A maioria dos experimentos realizados até o momento priorizou a avaliação da plasticidade e, para esse fim, foram induzidas lesões agudas no tecido a ser avaliado. O mecanismo intrínseco desempenhado pela reação inflamatória em eventos como o recrutamento e o devido assestamento dessas células na área lesada ainda são alvo de investigação. Estudos em modelos experimentais de doença crônica poderão responder se o emprego de células-tronco nessas condições, como na insuficiência cardíaca, também apresentará evidências de plasticidade e regeneração.

— Utilizar um conjunto de células que dariam suporte à proliferação e à manutenção das células-tronco poderia ser mais vantajoso que o uso de um único tipo de célula, como as mesenquimais ou as células progenitoras.

— Muito recentemente, Urbanek e colaboradores(14) publicaram a descoberta de células-tronco miocárdicas, apesar de apresentarem marcadores similares às células-tronco obtidas de tecidos hematopoiéticos. Independentemente da controvérsia, é possível que todos os órgãos possuam células com potencial de plasticidade e transdiferenciação que necessitam ser mais bem estudados em todos os seus aspectos biológicos.

— O uso de células-tronco em sistemas biomiméticos possibilita seu emprego em diferentes áreas da Cardiologia: vasos biocompatíveis com maior viabilidade, bioengenharia muscular, etc.

— Aspectos como a identificação de qual tipo celular é o mais adequado para o efeito terapêutico desejado, a sobrevida das células transplantadas, as vias ótimas de acesso ao miocárdio (endovascular ou cirúrgica) para o transplante celular e a definição do comportamento das células transplantadas em relação ao tecido nativo (acoplamento eletromecânico, contribuição funcional, alteração do remodelamento ventricular) são de capital relevância e devem ser considerados antes que a terapia celular possa ser rotineiramente empregada.

CIB

CIB - Já se sabe qual o percentual de recuperação dos pacientes que se submetem a terapias à base de células-tronco?

Gowdak - Há dados preliminares sobre uma nova forma de tratamento, ainda experimental, que é a terapia celular. Os dados disponíveis em áreas de pesquisa como a cardiologia são bastante promissores e justificam a formação de pesquisadores capacitados, trabalhando em centros de excelência, sob o rigor da ética médica, para que o real benefício da terapia com células-tronco seja determinado com exatidão.

CIB - Terapias que utilizam as células-tronco representam algum risco para os pacientes?

Gowdak - Talvez o maior risco seja o da frustração em caso de insucesso após a terapia celular. Quando um paciente é incluído em um estudo clínico experimental de terapia com células-tronco é porque os tratamentos convencionais falharam e não há muita expectativa de recuperação ou mesmo de sobrevida prolongada. Assim, o paciente vê, nas células-tronco, sua "última esperança" de ficar bom. A ansiedade por resultados "miraculosos" cresce e, na eventualidade de fracasso, isso pode ser devastador. Quantos aos riscos da terapia celular em si, os estudos, até o momento, não mostraram complicações importantes. No entanto, não dispomos ainda de seguimento de longo prazo para dizer com exatidão o que acontecerá em 5, 10 ou 20 anos após o tratamento.

CIB - Que pesquisas o Incor realiza nesta área?

Gowdak - O Instituto tem dois grupos de pesquisadores trabalhando com técnicas diferentes de células-tronco para problemas distintos. Um grupo, liderado pelo professor Edimar Bocchi, estuda a utilização de células-tronco no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca, encaminhados para avaliação de transplante cardíaco. Outro grupo, do qual sou o coordenador clínico, é liderado pelo professor Sérgio Almeida de Oliveira e estuda a utilização de células-tronco derivadas da medula óssea do próprio paciente para o tratamento da insuficiência coronariana grave, na qual existe impossibilidade de tratamento convencional completo, seja por cateter (angioplastia) ou por cirurgia (ponte de safena).

Já tratamos dez pacientes pela técnica combinada de cirurgia de ponte de safena mais injeção de células-tronco e o acompanhamento de um ano desses pacientes terminará em julho próximo. Em função dos resultados obtidos quanto à segurança do projeto, recebemos autorização dos órgãos competentes e já iniciamos uma nova fase do estudo, na qual incluiremos cerca de 60 pacientes para determinarmos com exatidão a eficácia desta forma de terapia.

CIB - Quais são as perspectivas no que se refere à evolução das pesquisas com células-tronco?

Gowdak - Particularmente no Brasil, há que se dispor de recursos para o financiamento dos projetos. A terapia prevê a integração da pesquisa básica com a pesquisa clínica, daí a necessidade de profissionais capacitados em ambas as frentes, trabalhando em laboratórios bem equipados para garantir o controle de qualidade do material celular; o acesso à população de pacientes que potencialmente se beneficiará deste estudo e meios diagnósticos para avaliação e seguimento após o procedimento. Além disso, o rigor ético deve acompanhar o rigor científico, evitando-se conflitos de interesse e a auto-promoção. E, finalmente, por mais excitante que seja esta nova modalidade terapêutica e o seu potencial enorme no tratamento de doenças graves e de prognóstico sóbrio, há que se manter a prudência na divulgação de seus resultados.

CIB - Por que se começou a estudar céluas-tronco com tanto afinco?

Perin - As células-tronco são a origem da matéria viva. Se retomarmos os princípios de Leydig, Virchow e Pasteur, a vida nada mais é do que um contínuo, sem um inicio e sem um fim definido. A primeira célula-tronco, o óvulo fertilizado, caracteriza-se por ser totipotencial, tendo a capacidade de diferenciar-se em qualquer tipo de célula especializada embriônica ou adulta. Durante o desenvolvimento do embrião, células-tronco progenitoras são formadas e persistem ao longo do tempo, permitindo que o ciclo de vida continue através da regeneração dos tecidos. No século 19, a hipótese de que estas células progenitoras estivessem relacionadas ao desenvolvimento de neoplasias reforçou o interesse da comunidade científica no sentido de compreender o mecanismo pelo qual uma única célula origina um ser humano e mantém-se ativa ao longo de toda uma existência, reproduzindo-se de forma ordenada ou não. A possibilidade de aproveitar este potencial regenerativo em prol da reconstitutição de tecidos lesados vem mobilizando nossos esforços.

CIB - Como você observa as questões éticas do tema?

Perin - O entendimento das células-tronco é, na atualidade, uma das áreas de estudo mais fascinantes dentro das ciências da saúde tendo, inclusive, ultrapassado seus limites ao levantar questionamentos éticos e religiosos. A capacidade de regenerar e, conseqüentemente, de gerar vida é - e provavelmente por muito tempo ainda será - alvo de criticas e controvérsias éticas e religiosas. Na verdade, se olharmos para história da humanidade e, mais especificamente para história da Medicina, as "novas verdades" sempre estiveram associadas em maior ou menor grau ao júri popular e a moral vigente.

CIB - O que tem sido feito aí no Texas Heart Institute?

Perin - Nos últimos cinco anos, estamos nos dedicando a desenvolver terapias que permitam regenerar o tecido miocárdico. Mais especificamente, trabalhamos com a idéia de que poderíamos melhorar a capacidade funcional de nossos pacientes com cardiopatia isquêmica severa regenerando tecidos (vasos e músculo) através da injeção transendocárdica de células-tronco oriundas da medula óssea. A pesquisa é co-coordenada com o brasileiro Guilherme Silva e os médicos Rodrigo Branco (ProCardiaco/RJ), Edie Mello de Oliveira (Instituto do Coração da Serra Gaúcha/RS) e Franca Stedile Angeli (PUC/RS).

CIB - E os objetivos estão sendo alcançados?

Perin - Nossos resultados iniciais foram extremamente animadores e estamos ampliando agora nosso espectro de pacientes tratados, após a liberação do Food and Drug Administration (FDA). Atualmente, trabalhamos com pacientes isquêmicos crônicos com baixa capacidade funcional.

Existem outros protocolos em andamento, voltados ao tratamento de pacientes isquêmicos agudos (pós- infarto agudo do miocárdio).

Paralelamente, estamos desenvolvendo novos protocolos experimentais no sentido de qualificar nossos procedimentos e ampliar o espectro dos pacientes que possivelmente possam ser beneficiados. Os estudos previamente realizados, envolvendo especificamente pacientes com cardiopatia isquêmica dilatada, demonstraram a segurança e efetividade da injeção transendocárdica. Contudo, a aceitação deste resultado para outro grupo de pacientes requererá novos estudos de segurança que confirmem tais achados.

Saiba mais:
Texas Heart Institute
National Institutes of Health
InCor Fundação Zerbini - Ciência e Humanismo